Blog15 de janeiro de 2025O que um estudo viral sobre 'engenheiros fantasma' acerta e erra
Esbarrei num estudo viral sobre "engenheiros fantasma" e não consegui parar de ler.
Começou como leitura leve e virou algo mais próximo de uma história de detetive.
A manchete: 9,5% dos engenheiros de software não fazem praticamente nada. Cinquenta
mil engenheiros, centenas de empresas, pesquisa de Stanford. Números assim fazem
executivo derrubar o café.
Aí olhei a metodologia.
Os pesquisadores usaram 70 commits para construir um modelo que avaliou 1,73 milhão
de commits. Imagine entrar na Biblioteca do Congresso, com seus 39 milhões de livros, e
julgar o acervo inteiro a partir de 70 páginas. A proporção da amostra é 0,004%. Só Java.
Validação cruzada leave-one-out, random forest com análise estática.
Meu primeiro instinto foi que aquilo não podia ser confiável.
Mas é aqui que fica interessante, e onde mudei de ideia. Os números reportados foram:
correlação de 0,82 para estimativa de tempo, ICC(2,k) de 0,81 para consistência de tempo
de codificação entre avaliadores. Isso é forte. Apesar do tamanho da amostra, os
resultados do modelo eram surpreendentemente estáveis.
E o modelo não estava contando commits. Ele analisava as mudanças de código de cada
commit em termos de complexidade e outros parâmetros, e foi construído para imitar
avaliações feitas por dez especialistas humanos independentes. Isso é mais parecido com
ter um painel de revisores experientes avaliando cada mudança do que com qualquer métrica
de contagem de commits.
Então o que eu tiro disso?
Duas coisas que convivem mal. Amostras pequenas podem produzir modelos confiáveis quando
aquilo que se mede é consistente e as features são bem escolhidas — tamanho de amostra
sozinho não é o argumento inteiro, e eu fui rápido demais em supor que era. Mas um modelo
que reproduz de forma confiável o julgamento de especialistas sobre commits em Java não é
a mesma coisa que uma afirmação sobre o que 9,5% dos engenheiros de software fazem com
suas vidas profissionais. O resultado técnico e a manchete são afirmações diferentes, e
só uma delas foi de fato testada.
Num mundo cada vez mais obcecado por métricas, o que medimos — e como medimos — importa.
Até os modelos mais avançados são tão perspicazes quanto os dados que lhes damos, e tão
honestos quanto as conclusões que tiramos para além deles.