Blog12 de agosto de 2024Sobre ser visto
Me permiti uma extravagância recentemente: café da manhã em um hotel.
Onde eu moro, hotéis não são especialmente caros, mas quando você mora aqui aprende a
valorizar cada real. Então é raro ir.
Naquele sábado o clima estava tranquilo — alguns hóspedes a trabalho, um casal de
passagem pela cidade. Nossa recepcionista, uma mulher de uns quarenta anos, trabalhava
sozinha. Ela se movia com uma agilidade de verdade, e às seis em ponto anunciou que
estava tudo pronto.
Fui sem pressa. Aproveitei mais do que a ocasião provavelmente merecia.
No caminho para a recepção cruzei com ela e disse: "Oi, eu sou o Marcos. Queria dizer que
estava delicioso — meu dia vai ser bem melhor agora." Deixei uma gorjeta ao sair.
Ela agradeceu rápido e eu fui embora.
Penso bastante sobre o que isso custa e o que pode valer. Quando o cansaço chegar para
aquela mulher, como chega para todos nós, desconfio que ela ainda vai dar o seu melhor
naquele dia. Não porque espera uma recompensa — não há garantia nenhuma disso — mas
porque em algum lugar existe um pouco mais de evidência de que ela é vista, notada, e
capaz de fazer diferença.
Aprendi a me importar com isso entrando na vida adulta. Já fui motorista de Uber, garçom,
vendedor de bebida em eventos, barman em casas de festa. Acredito no trabalho bem feito,
e quero que as pessoas ao meu redor acreditem também.
Não pela recompensa, porque nem sempre ela vem. Não pelo reconhecimento, porque as
pessoas costumam estar absortas nos próprios mundos. Mas pelo orgulho de si mesmo que
ninguém tira nem compra.
Sei que atitudes assim não são comuns, e sei disso em parte porque escrever este texto
traz aquela velha sensação conhecida de que posso ser mal interpretado. Essa mesma
sensação é o que faz a maioria de nós hesitar antes de agir assim.
Aceito o risco de ser mal interpretado pela chance de influenciar alguém em direção a
algo em que acredito. Todo o dinheiro do mundo não compra reconhecimento verdadeiro e
sincero.