Blog5 de novembro de 2024Comprando tinta antes do cimento
Sempre fui atraído por computadores. Aos cinco anos eu já sabia ligar um. Aos oito tinha
decorado os comandos do MS-DOS. Aos onze já escrevia programas com certa confiança, e me
matriculei num curso de programação para melhorar.
O instrutor era um dos melhores alunos da faculdade local e rapidamente virou alguém que
eu queria impressionar.
Então veio uma prova em que ainda penso: construir um sistema simples para um
supermercado. Recebemos funções básicas de entrada e a tarefa de produzir saídas
diretas. Parecia fácil. Eu me sentia confiante de que daria conta da lógica rápido.
Aí decidi ir além do pedido. Em vez de me concentrar em fazer a coisa funcionar, despejei
minha energia numa interface impressionante e estilizada.
Quando o relógio começou a apertar, percebi o que tinha feito. Faltando minutos, eu tinha
uma casca linda de um sistema que não resolvia o problema que lhe foi dado.
Um F por um sistema que não funciona não impressiona ninguém, por melhor que ele pareça.
Um B por uma solução que funciona, por mais simples que seja, te mantém no jogo e te dá
outra chance de tirar um A.
Me pego comprando tinta antes do cimento com mais frequência do que gostaria de admitir —
o dashboard estilizado antes de o pipeline ser confiável, a API documentada antes de
estar correta. O instinto não é preguiça. É que o trabalho visível parece progresso
enquanto o trabalho de fundação parece atraso.
Construa a fundação primeiro. A tinta continua lá depois.