Blog5 de novembro de 2024

Comprando tinta antes do cimento

Marcos Conci
Sempre fui atraído por computadores. Aos cinco anos eu já sabia ligar um. Aos oito tinha decorado os comandos do MS-DOS. Aos onze já escrevia programas com certa confiança, e me matriculei num curso de programação para melhorar. O instrutor era um dos melhores alunos da faculdade local e rapidamente virou alguém que eu queria impressionar. Então veio uma prova em que ainda penso: construir um sistema simples para um supermercado. Recebemos funções básicas de entrada e a tarefa de produzir saídas diretas. Parecia fácil. Eu me sentia confiante de que daria conta da lógica rápido. Aí decidi ir além do pedido. Em vez de me concentrar em fazer a coisa funcionar, despejei minha energia numa interface impressionante e estilizada. Quando o relógio começou a apertar, percebi o que tinha feito. Faltando minutos, eu tinha uma casca linda de um sistema que não resolvia o problema que lhe foi dado. Um F por um sistema que não funciona não impressiona ninguém, por melhor que ele pareça. Um B por uma solução que funciona, por mais simples que seja, te mantém no jogo e te dá outra chance de tirar um A. Me pego comprando tinta antes do cimento com mais frequência do que gostaria de admitir — o dashboard estilizado antes de o pipeline ser confiável, a API documentada antes de estar correta. O instinto não é preguiça. É que o trabalho visível parece progresso enquanto o trabalho de fundação parece atraso. Construa a fundação primeiro. A tinta continua lá depois.
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